O Krav Maga é, sem dúvida, uma das melhores ideias criadas pelo ser humano. Ao redor do mundo, o nome de seu criador, Imi Lichtenfeld, é pronunciado com a reverência dedicada aos grandes mestres das artes marciais. Mas quem visita Israel com a expectativa de encontrar monumentos públicos ou grandes estátuas de Imi e tirar algumas fotos como turista pode se surpreender, não existe em Israel um busto ou uma estátua em pose marcial ou serena em sua homenagem. Nem em Tel Aviv ou Netanya onde morou, mas sim em Bratislava, na Eslováquia como na foto abaixo.

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Para compreender esse fenômeno, é preciso analisar a cultura memorial israelense, a trajetória de Imi e a forma como o Krav Maga é percebido dentro e fora de suas fronteiras.

Se pararmos para pensar nas figuras que costumam ganhar estátuas pelo mundo, geralmente pensamos em heróis que mudaram os rumos políticos de uma nação. Em Israel, isso não é diferente. Quando caminhamos pelas cidades israelenses, os poucos monumentos individuais que encontramos pertencem a homens que habitaram o topo do panteão histórico do país, figuras mitológicas cujo peso político e militar moldou a própria existência do Estado.

É o caso de Theodor Herzl, o jornalista que desenhou o sonho do Estado judeu e o pai espiritual da nação, o homem que projetou o ideal de uma pátria judaica antes mesmo de ela ganhar vida. Embora a cultura do país evite o culto à imagem nas praças comuns, a importância de Herzl fez com que ele ganhasse um monumento bem específico. Essa homenagem fica localizada dentro da histórica Escola Agrícola Mikve Israel, na entrada da cidade de Holon, registrando o exato ponto geográfico onde ele se encontrou com o Kaiser Guilherme II da Alemanha em 1898.

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Outro pilar imortalizado é David Ben-Gurion, o principal fundador e primeiro-ministro do país, responsável por proclamar a Declaração de Independência de Israel em 1948 e liderar a nação em seus primeiros anos de existência. Para além da sua famosa representação nas areias de Tel Aviv, a memória de Ben-Gurion é preservada por um monumento marcante integrado à paisagem do Kibutz Sde Boker, no coração do deserto do Negev, bem perto da casa onde ele escolheu viver seus últimos dias.

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Mesmo os grandes comandantes militares e líderes políticos que enfrentaram as maiores crises do século XX receberam homenagens cuidadosamente integradas à história das cidades. Moshe Dayan, o icônico comandante cujas estratégias na Guerra dos Seis Dias e na Crise de Suez o tornaram o rosto da sobrevivência e da audácia militar israelense, foi homenageado com um busto que exibe seu clássico tapa-olho. Esse monumento fica na Praça da Operação Danny, na cidade de Ramla, região onde ele liderou ofensivas cruciais em 1948.

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Da mesma forma, Yitzhak Rabin, que atuou como Chefe do Estado-Maior do Exército e primeiro-ministro, comandando vitórias militares decisivas e dedicando seus últimos anos de vida à busca histórica pela paz na região, esforço que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz antes de seu trágico assassinato, possui uma homenagem que o retrata de forma serena. Diferente das pedras brutas instaladas na praça do crime, essa representação foi acolhida no pátio do Yitzhak Rabin Center, situado na rua Chaim Levanon, em Tel Aviv, um espaço inteiramente dedicado a preservar sua biografia.

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Imi Lichtenfeld é profundamente respeitado, mas sua história correu por outros trilhos. Ele foi o homem de bastidores, o gênio técnico. Em vez de discursar em palanques ou assinar tratados, Imi passou os anos de formação do Estado dentro dos quartéis, lapidando a doutrina de combate corpo a corpo das recém-formadas Forças de Defesa de Israel (IDF). Para o governo e para o exército, ele era o instrutor especializado indispensável, o pioneiro que ensinou o país a se defender, mas não um líder político-militar central. Sua contribuição foi prática, direta e silenciosa.

Além do papel de Imi nos bastidores, existe um traço cultural marcante que os turistas judeus e estrangeiros demoram a perceber, os israelenses simplesmente não têm o hábito de construir grandes estátuas heroicas para indivíduos nas ruas centrais, algo muito comum na Europa ou na América Latina. A memória nacional por lá prefere o coletivo e o abstrato, guardando as representações humanas para nichos históricos muito específicos, como os jardins de museus, escolas agrícolas pioneiras ou os redutos onde esses líderes viveram.

Basta olhar para os monumentos públicos mais importantes de Israel para entender como essa engrenagem funciona:

A Menorá da Knesset, em Jerusalém, é um exemplo claro disso. Em vez de celebrar um homem só, essa enorme peça de bronze narra a saga inteira de um povo, esculpindo em seus relevos as dores e as vitórias que unem o passado bíblico ao sionismo moderno.

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Quando abrem uma rara exceção para uma estátua humana na avenida, ela vem carregada de simbolismo histórico, como a de Meir Dizengoff em Tel Aviv. Ele aparece montado em seu cavalo na Rothschild Boulevard, mas a obra celebra menos o homem e mais o milagre urbano de ter fundado a primeira grande cidade judaica moderna do zero.

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O Monumento da Brigada do Negev, em Beer Sheva, resume com perfeição o estilo de luto e orgulho do país. Não há um soldado heroico segurando uma bandeira, o que se vê são formas de concreto abstratas e geométricas que brotam do deserto para honrar, juntos, todos os jovens que caíram na guerra de 1948.

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Até mesmo o Memorial de Yitzhak Rabin, na praça pública onde ocorreu o seu assassinato em Tel Aviv, foge do formato tradicional. No chão da praça, foram instaladas pedras escuras e brutas que parecem simbolizar uma ferida aberta na terra, convidando o pedestre a refletir sobre a paz e a democracia, preferindo o peso do significado à vaidade do bronze.

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Essa mesma filosofia se repete no Monte Herzl, o cemitério nacional onde os líderes repousam sob lápides sóbrias e idênticas, um espaço que ilustra o respeito à história e ao sacrifício coletivo do país, sem a necessidade de erguer monumentos humanizados para exaltar figuras individuais.

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Há também um contraste curioso sobre como o Krav Maga é vivido no dia a dia. Para nós, que olhamos de fora, o sistema tem uma aura quase lendária de eficiência extrema. Imaginamos que em Israel a criação de Imi seja tratada como uma relíquia sagrada. Mas a verdade é que, para o cidadão local, o Krav Maga acabou se tornando algo comum, parte da rotina. Como o serviço militar é obrigatório, quase todo jovem passa pela instrução básica de combate no exército. O Krav Maga virou o feijão com arroz da defesa militar por lá. Ele perdeu aquela aura de algo extraordinário porque se misturou ao cotidiano de sobrevivência do país.

Para piorar a situação institucional, após a partida de Imi em 1998, o movimento perdeu a chance de manter uma voz única. O legado se dividiu em diferentes federações e linhagens independentes que passaram a disputar a autoria e a pureza das técnicas. Sem uma fundação unificada e apoiada pelo Estado para centralizar e proteger a imagem do mestre, a memória institucional se pulverizou, tornando ainda mais difícil a iniciativa de se pleitear um grande monumento público.

Guardadas as devidas proporções geográficas, é um cenário que nos permite traçar um paralelo muito claro com o que acontece no Brasil em relação às nossas próprias artes marciais. Por aqui, modalidades fundamentais da nossa identidade, como o Jiu-Jitsu Brasileiro (BJJ), a capoeira e a luta livre esportiva, historicamente carregam e ainda sofrem com uma boa dose de preconceito pelos erros e esquecimento da representatividade e boas práticas por parte da sociedade. Mesmo sem conhecer a fundo as técnicas ou a filosofia, boa parte da população ainda associa essas artes à violência do passado, puxando pela memória os confrontos antigos dos capoeiras nas ruas ou os desafios da família Gracie em academias de outras artes.

O próprio Krav Maga acabou sendo inserido exatamente nessa mesma área no Brasil. Embora todas essas modalidades façam parte da riqueza cultural e da história, elas terminam empurradas para uma espécie de limbo cultural e institucional, mesmo com o seu conteúdo e a sua prática sendo consumidos por milhões de pessoas no dia a dia. Suas figuras-chave são raramente lembradas, celebradas ou homenageadas pelo Estado, sofrendo rejeição até mesmo dentro das academias, em vez de receberem o respeito e a dignidade que mereceriam por sua imensa importância.

Retornando após esse pequeno aparte… Mesmo sem o bronze nas praças, a história de Imi se mantém viva e pulsando em círculos muito bem definidos. Nas academias do mundo inteiro, ele é o eterno Grandmaster, o escudo de legitimidade de cada instrutor. No meio militar, seu nome está gravado nos manuais como o homem que deu o pontapé inicial, no combate de contato. É bem verdade que o exército moderno hoje busca se concentrar na alta tecnologia de drones, inteligência artificial e operações cibernéticas, em uma tentativa de suprimir o trabalho pesado do confronto direto e olho no olho dos conflitos. A Ucrânia demonstrou que as guerras de atrição estão longe de acabar e que o papel do homem ainda é insubstituível, pelo menos por enquanto.

Mas o impacto mais profundo de Imi vai além das técnicas de soco e esquiva. Ele toca no cerne da própria identidade judaica moderna. Imi representa a virada de chave histórica do judeu que deixou de ser uma vítima passiva na Europa para se tornar um combatente capaz de defender sua própria vida e a de sua comunidade. O fato de ele ter enfrentado gangues fascistas nas ruas de Bratislava na década de 1930, muito antes de Israel existir, dá ao seu nome um peso gigantesco na narrativa de sobrevivência pós-Holocausto.

Com o tempo, o mito também passou a ser debatido por historiadores, que relembram que o Krav Maga foi uma construção coletiva, oxigenada por muitos outros instrutores competentes dentro do exército, e criticam o uso comercial agressivo que algumas organizações fazem do nome do fundador.

No fim das contas, a falta de uma estátua de Imi Lichtenfeld em Israel não é um sinal de esquecimento, é apenas a engrenagem de uma cultura que prefere registrar seus heróis na prática da vida. Imi não precisa estar congelado em um pedestal de mármore. Seu verdadeiro monumento é invisível e se renova todas as manhãs, ele está impresso na doutrina de defesa pessoal, na mudança de mentalidade do povo judeu e em cada tatame espalhado pelo mundo onde um aluno aprende a se defender e a voltar são e salvo para casa. Longe de todas as controvérsias da genealogia do Krav Maga, exageros e mentiras proclamadas em seu nome, devemos nos ater à sua mensagem de resiliência e focar no trabalho nobre de ajudar o próximo, como ele tanto fez em sua vida.

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